segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Existe vida sem lactose?

Cresci no interior de Minas, tomando leite direto da fazenda. Minha mãe colocava o caldeirão na janela e o leiteiro passava todo dia cedinho, deixando dois litros sempre fresquinhos. A gente colocava para ferver e ficava vigiando para não derramar. Era só virar as costas e... pronto! Estava feita a bagunça.

Eu odiava limpar o fogão quando o leite entornava. Mas amava todo o resto. O toddy quentinho antes de ir para a escola, a manteiga feita em casa, o pãozinho de nata da tia Inês, o bolo da dona Nininha, a broa da Maristela, o pavê da Dani, o queijo do Roberto e até o chup-chup de creme de ovos que nunca mais vi em lugar algum.

Antes de existir o microondas, eu esquentava o leite num caneco de alumínio. Tinha um ponto exato da temperatura, sem erro. Quando começava a borbulhar as bordas, eu desligava o fogo. Era a primeira ação da manhã. Tomava tudo de glut-glut, praticamente de olhos fechados, ainda caindo de sono. Só depois eu lavava o rosto, escovava os dentes e corria para o colégio.

Cresci (não muito, rs), mas continuei feito uma bezerra, tomando praticamente um litro de leite diariamente. Isso, sem contar os derivados e todo o resto que leva queijo ou leite condensado. Em qualquer casa da família por onde passo, todos já sabem como me agradar. Um copo de leite com toddy (e açúcar!), de preferência com bolinhas de chocolate!

Lembro que, quando eu já estava na faculdade, a empregada da minha tia ficava incomodada porque eu só tomava leite e comia farofa. Era minha base alimentar. A dona Geralda até hoje encontra com a minha tia e pergunta se eu tenho comido melhor. Pois é, dona Geralda, acrescentei algumas coisas no meu cardápio. Mas nunca tirei o leite da dieta. Nem a farofa.

Meu marido também ama queijo e leite com toddy. E minha filha segue o mesmo caminho. Quer me ver irritada é chegar em casa depois de um dia pesado e não ter um leite geladinho para beber. Ele me traz paz, aconchego, conforto, felicidade. Não é simplesmente um alimento para matar a fome. É um resgate da memória afetiva, um abraço, um carinho.

De uns tempos para cá, porém, comecei a me sentir um pouco incomodada. Intestino irregular, muitos gases, barriga inchada, queimação no estômago. Procurei um gastro, que me pediu teste de intolerância à lactose. Morrendo de medo do que podia estar por vir, me fiz de boba e não levei o resultado ao médico.

Um ano se passou. Mas o desconforto não melhorou. Pelo contrário. Me sentia cada vez mais indisposta e estufada. Cheguei a fazer até teste de gravidez, de tão estranha que estava me sentindo. Nada. Precisei voltar ao gastro.

Enfim, diagnóstico confirmado. Intolerância à lactose. Mas como? Por que isso agora, depois de mais de 30 anos tomando leite sem parar? Segundo o médico, perfeitamente normal e possível. Mas, para mim, sinônimo de desespero. Não conseguia parar de pensar em como seria minha vida sem lactose. “Eu não vou sobreviver”, pensava.

Cheguei a cogitar a possibilidade de passar mal para o resto da vida, mas não cortar o leite do menu. Mas, ok, é ano novo. Vou tentar.

“São 30 dias de zero lactose. Sete dias, no máximo, de superdosagem. Depois, tentamos uma dieta de redução”, orientou o médico. Comecei a pesquisar alternativas. Leite de soja, produtos especiais, receitas sem leite.  E comecei hoje minha dieta da tortura.

Estou sofrendo por antecipação, só de pensar em tudo o que eu não posso comer.  E como não vou ter meu leitinho para afogar as mágoas, criei este blog.

Não sei se existe vida sem lactose, mas vou descobrir e contar para vocês.

Carroça de Leite - Beth Fonseca

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