Cresci no interior de Minas, tomando leite direto da
fazenda. Minha mãe colocava o caldeirão na janela e o leiteiro passava todo dia
cedinho, deixando dois litros sempre fresquinhos. A gente colocava para ferver
e ficava vigiando para não derramar. Era só virar as costas e... pronto! Estava
feita a bagunça.
Eu odiava limpar o fogão quando o leite entornava. Mas amava
todo o resto. O toddy quentinho antes de ir para a escola, a manteiga feita em
casa, o pãozinho de nata da tia Inês, o bolo da dona Nininha, a broa da
Maristela, o pavê da Dani, o queijo do Roberto e até o chup-chup de creme de
ovos que nunca mais vi em lugar algum.
Antes de existir o microondas, eu esquentava o leite num
caneco de alumínio. Tinha um ponto exato da temperatura, sem erro. Quando
começava a borbulhar as bordas, eu desligava o fogo. Era a primeira ação da
manhã. Tomava tudo de glut-glut, praticamente de olhos fechados, ainda caindo
de sono. Só depois eu lavava o rosto, escovava os dentes e corria para o
colégio.
Cresci (não muito, rs), mas continuei feito uma bezerra, tomando praticamente
um litro de leite diariamente. Isso, sem contar os derivados e todo o resto que
leva queijo ou leite condensado. Em qualquer casa da família por onde passo,
todos já sabem como me agradar. Um copo de leite com toddy (e açúcar!), de
preferência com bolinhas de chocolate!
Lembro que, quando eu já estava na faculdade, a empregada da
minha tia ficava incomodada porque eu só tomava leite e comia farofa. Era minha
base alimentar. A dona Geralda até hoje encontra com a minha tia e pergunta se
eu tenho comido melhor. Pois é, dona Geralda, acrescentei algumas coisas no meu
cardápio. Mas nunca tirei o leite da dieta. Nem a farofa.
Meu marido também ama queijo e leite com toddy. E minha
filha segue o mesmo caminho. Quer me ver irritada é chegar em casa depois de um
dia pesado e não ter um leite geladinho para beber. Ele me traz paz, aconchego,
conforto, felicidade. Não é simplesmente um alimento para matar a fome. É um
resgate da memória afetiva, um abraço, um carinho.
De uns tempos para cá, porém, comecei a me sentir um pouco
incomodada. Intestino irregular, muitos gases, barriga inchada, queimação no
estômago. Procurei um gastro, que me pediu teste de intolerância à lactose. Morrendo
de medo do que podia estar por vir, me fiz de boba e não levei o resultado ao
médico.
Um ano se passou. Mas o desconforto não melhorou. Pelo
contrário. Me sentia cada vez mais indisposta e estufada. Cheguei a fazer até
teste de gravidez, de tão estranha que estava me sentindo. Nada. Precisei
voltar ao gastro.
Enfim, diagnóstico confirmado. Intolerância à lactose. Mas
como? Por que isso agora, depois de mais de 30 anos tomando leite sem parar? Segundo
o médico, perfeitamente normal e possível. Mas, para mim, sinônimo de
desespero. Não conseguia parar de pensar em como seria minha vida sem lactose. “Eu
não vou sobreviver”, pensava.
Cheguei a cogitar a possibilidade de passar mal para o resto
da vida, mas não cortar o leite do menu. Mas, ok, é ano novo. Vou tentar.
“São 30 dias de zero lactose. Sete dias, no máximo, de
superdosagem. Depois, tentamos uma dieta de redução”, orientou o médico. Comecei
a pesquisar alternativas. Leite de soja, produtos especiais, receitas sem
leite. E comecei hoje minha dieta da
tortura.
Estou sofrendo por antecipação, só de pensar em tudo o que
eu não posso comer. E como não vou ter
meu leitinho para afogar as mágoas, criei este blog.

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